Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Entrevistas SALVA

À conversa com…
Prof. Francisco Castro
 
Francisco Itamar Castro nasceu em 1953 em Camaquã, no interior do Rio Grande do Sul, no Brasil. É criado numa fazenda, num ambiente natural e saudável. O pai e a avó materna cultivam nele o interesse pelas plantas. Aos três anos, já reconhece uma infinidade de plantas medicinais. Aos quatro anos, sabe ler, escrever e fazer contas e diz querer ser médico. Faz a primária no Colégio Marista, optando depois pelo ensino oficial, para poder ingressar na universidade de Medicina estatal. Passa do quarto para o sexto ano e termina o liceu com 16 anos. Seguem-se oito anos na faculdade de Medicina. Especializa-se em Psiquiatria que nunca exerce. Trabalha em vários hospitais e nas urgências até abandonar a medicina e se dedicar à investigação. No Instituto Beneficente à Pesquisa Cientifica regressa às origens, ao imenso mundo das plantas.
O destino seguinte é o Oriente. Passa seis anos no Japão como professor universitário e, paralelamente, estuda medicina tradicional chinesa. Faz mestrado em Pequim e estagia num hospital na própria China. Regressa ao Japão por mais dois anos. Funda uma clínica onde trabalha como terapeuta de medicina chinesa.
Numa viagem inesperada ao nosso país, depara com um potencial natural que o fascina. Aqui, sente-se em casa, com uma grande afinidade com o povo e os locais. Vive em Portugal há doze anos. Para além do trabalho que desempenha na Associação Salva é representante delegado da Universidade de Pequim.
 
 
  
Quais são as técnicas que utiliza no exercício da medicina tradicional chinesa?
 
As mais importantes são doze. A técnica principal é o kikoo. Um terapeuta tem de saber lidar com a energia e preparar o seu corpo para trabalhar em medicina chinesa. É um conhecimento vital. O yakuzen é uma técnica de alimentação, complementada pelo kampoyaku que inclui a fitoterapia e a farmacologia. A tuina, a reflexologia e a anma são técnicas de massagem. A acupunctura, com uma complexidade imensa, a moxa, que também utiliza agulhas, e a suitama, que utiliza ventosas, são outras técnicas básicas. As duas últimas são técnicas de adivinhação, digamos assim: o I Ching e o Feng Shui. São a parte espiritual da medicina chinesa.
 
 
Mencionou essas duas técnicas em último lugar, mas a vertente espiritual é muito importante na medicina chinesa.
 
Sem dúvida. O I Ching é a consulta do oráculo. Antes de fazer um tratamento, devo consultar o oráculo para saber quando será mais adequado intervir. Isso implica o conhecimento do Feng Shui, ou seja, a influência das energias da natureza sobre o indivíduo. Feng Shui significa Vento Humidade que são consideradas as energias perversas da natureza. Devo ter sempre em conta o micro-universo em que eu e a pessoa a tratar estamos incluídos. Tenho de conhecer as condições básicas da natureza naquele momento – se está um dia de chuva ou sol, se está um dia ventoso ou húmido. E é isso que determina o sucesso ou o insucesso do tratamento.
 
 
 Como vê o uso isolado da acupunctura em Portugal?
 
Estamos longe de praticar uma medicina chinesa ideal, mesmo utilizando as doze técnicas. Eu também tenho limitações e aceito-as. A perfeição existe mas dificilmente se atinge. Os terapeutas que têm um conhecimento limitado podem fazer um bom trabalho. O que mais conta é o impulso no sentido de ajudar. Temos de acreditar em algo maior do que apenas uma técnica.
 
 
A medicina tradicional chinesa pode ser completada pela medicina ocidental?
 
Num politraumatizado que chega às urgências de um hospital não se pode aplicar apenas a medicina chinesa. Ela tem realmente de ser complementada por outra medicina. Mas o trauma é do corpo, da mente e do espírito. Logo, também não se deve socorrer apenas o corpo. Se a alma abandona o corpo, o corpo não serve para nada.
 
 
A medicina moderna é necessária?
 
Penso que sim porque a complexidade dos problemas que temos actualmente não se resolve só com a medicina chinesa. Mas a medicina científica, sozinha, também não responde a todas as necessidades, e é cara. Além disso, só actua quando já existe uma doença, uma deformação ou uma disfunção. Para a medicina chinesa, aí é tarde de mais. E em termos preventivos, a medicina moderna também falha, até por uma questão de tempo. Os médicos estão tão atarefados a tentar salvar pessoas doentes e em estado muito grave que acabam por não ter tempo para investir na prevenção.
 
 
O ideal era haver um apoio do próprio Estado para o médico ter mais liberdade e poder dedicar-se plenamente ao seu trabalho.
 
Na verdade há. O estado tenta financiar a saúde mas também não consegue. O grande problema da medicina moderna é que ela acaba por ser inviável. Os médicos não conseguem vencer os problemas que se acumulam, e o dinheiro que o Estado investe é sempre pouco. Um surto de gripe leva milhares de pessoas até às urgências e isso custa imenso dinheiro ao Estado. Mas essas pessoas não ficam protegidas de modo a não terem o mesmo problema no ano seguinte. Se cumprissem os princípios da medicina chinesa, nem chegavam a adoecer, ou as que por acaso adoecessem, iam gerir o problema de maneira diferente, com um custo muito menor para elas e para o Estado. Tinham aprendido a lidar com a doença e não precisariam de recorrer às urgências do hospital aonde hoje se vai por qualquer motivo.
 
 
As crianças deviam aprender desde logo a evitar as doenças?
 
A medicina devia passar por um processo pedagógico em que as pessoas aprendessem a diminuir o sofrimento. E é isto que distingue a medicina chinesa da medicina moderna. A medicina chinesa explica à pessoa por que motivo ela chegou àquele ponto de doença e ensina-a a evitar essa situação ou outra pior no futuro. Este processo pedagógico devia começar realmente na infância. Na própria escola, podiam ensinar as crianças a ser saudáveis e aí teríamos uma sociedade com um perfil completamente diferente do actual.
 
 
Que características deve ter um terapeuta de medicina tradicional chinesa?
 
Antes de mais deve ter um impulso natural de solidariedade. Tem de haver esse chamamento interno e a vontade de dedicar a vida ao outro. Para isso, é preciso ser saudável. O terapeuta deve ser o primeiro a levar uma vida disciplinada para poder servir de ponto de referência. Deve ser o espelho do que é a Saúde. Um terapeuta também não pode ficar doente. E, se for necessário, o terapeuta tem de se tratar a si próprio. Assim sente na pele os efeitos do tratamento. Eu próprio uso a medicina chinesa no sentido da prevenção que é o que ela tem de melhor.
 
 
Sendo a medicina chinesa essencialmente uma medicina de prevenção, a doença e o sofrimento têm algum significado para um oriental?
 
Na verdade a medicina chinesa defende que se actue antes ainda da prevenção. Quando se fala em prevenção já se pressupõe o início de uma doença. Segundo esta medicina, não deveria existir a doença nem o sofrimento. Mas as pessoas sofrem e adoecem porque têm vícios e não cumprem determinados princípios.
 
 
E os terapeutas cumprem de facto todos esses princípios?
 
É claro que estou a falar em termos ideais. Bons e maus profissionais existem em todo o lado e os maus profissionais acabam obviamente por não os cumprir. Mas aí já se trata de um problema individual.
 
 
Como é que a medicina tradicional chinesa lida com problemas do foro psíquico?
 
Não há separação entre o corpo e a mente ou entre corpo e espírito. A pessoa é vista como um todo.
 
 
Um problema de origem psíquica é tratado da mesma forma que um problema orgânico?
 
Não sobrevalorizamos este ou aquele problema. Problemas são problemas. A pessoa funciona ou não funciona. Ela pode não ter um problema orgânico, mas se estiver infeliz, está doente na mesma.
 
 
E aí a medicina tradicional chinesa pode ajudar?
 
A medicina chinesa, como qualquer outra medicina tradicional, baseia-se na vontade de ajudar. Se houver um impulso nesse sentido, a ajuda é sempre válida, seja qual for o problema. Se uma pessoa tem uma doença terminal, podemos ajudá-la a morrer – com dignidade, com serenidade e em paz.
 
 
Que filosofia norteia a medicina chinesa?
 
A medicina chinesa baseia-se no princípio filosófico do taoísmo que reforça muito a fé no indivíduo e no nosso criador. No Ocidente, o pilar da sociedade é o cristianismo, fundamentalmente. Mas se virmos as coisas de uma forma mais ampla, Cristo aplicava o taoísmo. O princípio de dar a outra face tem muito a ver com o yin e o yang, os dois aspectos de uma questão. Não devemos ver as coisas apenas de um ângulo – do Bem ou do Mal – mas sim como um todo e com amor a esse todo.
 
 
Podemos dizer que o conhecimento antigo da medicina chinesa está incorporado no conhecimento que Cristo nos trouxe?
 
Cristo é a expressão de todo o conhecimento, de tudo o que existe. Como modelo ideal, como referência enquanto ser humano, Cristo expressa essa perfeição que os taoistas já defendiam. A palavra Cristo vem do grego Khristos, que significa o emanar da luz, o conhecimento pleno ou a perfeição.
 
 
O taoísmo é compatível com os valores do cristianismo?
 
Sim, não vejo conflito entre os dois. Até porque o cristianismo é uma religião que se traduz numa forma organizada de a sociedade se tentar aproximar de Deus, enquanto o taoísmo é uma forma de ver a natureza e o ser humano, mas não é uma religião.
 
 
Segundo o taoísmo, qual deve ser a maior virtude de um ser humano?
 
A maior virtude é praticar todas as virtudes. A palavra virtude significa vértice. Temos um vértice virado para o céu e outro virado para a terra. Somos um ponto de ligação do céu com a terra. A palavra religião também propõe uma ideia igual, ou seja, de ligar a terra – as coisas materiais, ao céu – as coisas divinas. No taoísmo a prática da virtude é mantermo-nos sempre coerentes com a nossa verdade interior, com as influências da terra, do mundo terreno, e as influências do céu, do mundo espiritual. Na medicina chinesa, concretamente, o que vem do céu é o oxigénio, a luz do sol e a energia, e o que vem da terra é a água e os alimentos.
 
 
Qual é então a fórmula para uma vida saudável?
 
O nosso corpo tem uma inteligência e percebe quando algo está mal ou vai correr mal. Para além dos sentidos normais que utilizamos no dia a dia, temos uma capacidade de perceber a energia do momento. O corpo avisa-nos e dá-nos sinais de perigo. Na maioria das vezes, as pessoas entram em pânico porque não sabem fazer a leitura correcta desses sinais. Na medicina chinesa diz-se que a dúvida é o início da doença. Quando a pessoa fica desalinhada e não consegue estar nem agir na vida na sua plenitude, está doente. Devemos viver a vida sem dúvidas, sem receios, sem pressa. Não devemos procurar a felicidade. Se ela é algo tão raro, especial ou frágil e apostamos a vida nessa procura, temos todas as hipóteses de fracassar. Para quê esperar por algo mais excepcional do que a própria vida? Devemos estar conscientes de que podemos ter tanto alegrias como tristezas. Umas e outras têm de ser vividas a cem por cento. Só assim atingimos o equilíbrio e evitamos a doença.  
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Elsa - Reflexologista – SALVA Madeira (2006.04.12)
Um sonho realizado
Elsa iniciou a formação de Reflexologia na SALVA através da APEDV (Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais). Já tinha concluído o curso de Fisioterapia quando na APEDV lhe falaram de um curso de Reflexologia, orientado pelo Dr. Francisco Castro, inicialmente previsto para 3 meses. “Acabei por ficar um ano e fazer o exame na China”. Actualmente já tem 6 anos de prática. Concluiu o curso em 2000/2001 Elsa                                                e ficou a acompanhar o Dr. Francisco nos tratamentos, na SALVA de Paço de Arcos.            
Falámos pelo telefone porque a Elsa trabalha na SALVA da Madeira há já 2 anos. Ficámos a saber o que pensa e sente esta jovem da sua actividade, a única Reflexologista invisual diplomada pela Universidade de Pequim – China, com a classificação mais elevada. De que forma esta experiência melhorou a sua vida e de que forma contribui para melhoria da saúde dos Sócios que atende todos os dias.

É preciso ter uma sensibilidade especial para exercer esta actividade?

Não sei se tem a ver com a sensibilidade. A minha situação é diferente. Não me posso comparar com um normal visual. Tenho uma maneira de viver diferente, uma maneira de ver diferente. Para mim, eu não tenho problemas em desempenhar esta função. Por isso eu gosto muito dela. Eu acho que no meu caso que tenho esta limitação é das terapias que podemos desempenhar com mais facilidade.
Já mesmo na Fisioterapia sentias isso, não é?
Na Fisioterapia também.
Mas o que a Reflexologia te trouxe para conhecer melhor as pessoas? Não houve aí um aprofundamento a esse nível?
Claro, porque diariamente a gente está a lidar com pessoas novas, entram e saem pessoas novas. Nós temos contacto com pessoas de vários níveis. É totalmente diferente do que trabalhar noutra área.
Mas eu também me referia a conhecer a pessoa em termos psicológicos, a esse nível também, não é? Porque tu, pelo estado geral da pessoa…
Tem a ver muito com a parte emocional. Muitas das vezes notamos que as pessoas se queixam e não é propriamente uma doença que elas têm, mas sim um desequilíbrio emocional. Isso é uma coisa que se vê muito bem no pé.
No fundo é como um mapa do estado geral da pessoa, não é?
O pé é totalmente a representação da pessoa. Por muito que a pessoa queira esconder… Uma pessoa que conheça o pé conhece a pessoa. Não precisa de perguntar muita coisa. Não é só a função dos órgãos, se estão em desequilíbrio, como a parte emocional, também conta muito. Através do pé você tem uma noção de que forma é que a pessoa vê o mundo. Nós ao mexermos naquele ponto, mexemos com a pessoa. Por muita coisa que a pessoa até tenha guardada dentro de si ela deita-a cá para fora.
Gostei daquela tua frase em que dizes que por mais que as pessoas queiram esconder os seus medos…
Ao mexermos na outra pessoa mexemos com a sua energia, e se ela sentir segurança em relação a nós, desabafa…
Confiança que se vai conquistando também com o relacionamento…
Tem de haver uma boa relação entre o terapeuta e o paciente, a pessoa em si.
E tu podes ajudar as pessoas a ultrapassar certos bloqueios assim, não é?
Porque não interessa só massajar. Também é da nossa parte usar um pouco de psicologia, também temos de saber lidar com as pessoas. Porque muitas vezes as pessoas chegam aqui revoltadas, contrariadas da vida, e a seguir vão totalmente diferentes, nem parecem a mesma pessoa. Nós começamos a fazer um tratamento com a pessoa que vive mal com a vida como a gente costuma dizer, ao longo do tratamento a pessoa já olha para nós com outros olhos, e já vê a vida com outros olhos.
Só agindo sobre o físico neste caso, não é? Desbloqueando aqueles pontos que estão em tensão…
Porque muitas das vezes os dramas, os medos, a maneira da pessoa ver a vida depende do equilíbrio do órgão, está a perceber? Por exemplo, a gente sabe que uma pessoa que tem pavor de tudo, tem medo do escuro, tem o rim completamente estragado. O rim está ligado aos medos. É assim: muitas das vezes, quando as pessoas vêm pela primeira vez e começam a falar, eu já vejo mais ou menos também o problema delas.
E depois confirmas com a observação do pé.
E confirmo com a massagem. Notamos que aquelas pessoas que são pessimistas, que acham que todas as desgraças lhes acontecem, sabemos que ali há uma disfunção do baço. É um desequilíbrio energético provocado pela parte emocional.
E já te aconteceu aparecerem pessoas muito medicadas, que se auto-medicam e assim…
Claro que sim. Tem de tudo um pouco. As pessoas que tomam medicação por conta própria temos de as esclarecer e deixam de tomar aquela medicação. Agora aquelas que tomam medicação aconselhadas pelo médico não nos devemos pronunciar porque é do foro da medicina convencional. E aí nós vamos fazendo a nossa parte e elas, à medida que vão melhorando, o médico delas é que vai retirando a medicação. Isso acontece muitas vezes.
Mas notas que as pessoas estão muito dependentes de medicamentos, para qualquer coisa encharcam-se em medicamentos?
As pessoas dependem muito da medicação por esta simples razão: muitas vezes é porque é mais fácil ir à farmácia levantar uma receita, está a perceber? Não perdem tanto tempo a vir ao tratamento, os tratamentos também não são muito baratos, o poder económico em que as pessoas vivem actualmente… São várias razões que fazem com que as pessoas, levem à medicação. 
Quando dizes que é mais fácil para as pessoas irem às farmácias achas que é uma certa negligência em relação à sua saúde, que não a ponham no primeiro plano, digamos assim, da sua vida?
Não. As pessoas só recorrem aqui à terapia quando estão mesmo mal e já não aguentam mais, elas não vêm como prevenção.
Que era o ideal…
Era o ideal. Porque principalmente a medicina chinesa trabalha muito como prevenção.Mas isto não. As pessoas quando chegam aqui, muitas das vezes, é quando já correram mil e um médicos e não tiveram solução e vêm à procura do último remédio, o último recurso.
Que problemas mais frequentes notas nas pessoas?
Ultimamente está a haver muita depressão, mesmo na malta jovem.
Depressão? Mesmo com esse sol maravilhoso da Madeira?
Sim. Mesmo na classe etária jovem.
Será porque dormem pouco? Saem à noite, esses hábitos nocturnos?
Não sei se tem a ver com isso.Está ligado ao tipo de educação que tiveram em casa, a seguir a entrar no meio do trabalho, isso também altera muito.
Será porque têm uma vida muito sedentária?
Têm uma vida muito sedentária. Recorrem muito à televisão e ao computador. A falta de exercício causa má circulação. A má circulação pode aumentar o colesterol, pode aumentar o açúcar, pode haver aumento das placas, pode haver um engrossamento do sangue. Muitos jovens de vinte e tal anos têm o colesterol muito alto. Não é normal nestas idades, é próprio da meia idade. É devido a uma vida muito sedentária.
Para a tua vida, como é que te tratas, como terapeuta?
O que eu posso fazer, eu faço. O que eu não posso, aproveito quando o Dr. Francisco vem cá para me queixar.
Mas sabendo que uma vida muito sedentária não faz bem, que uma vida stressada também é prejudicial, como é que tu fazes para manter a saúde, o equilíbrio?
Tento fazer os possíveis. É assim: também temos de pensar que a alimentação é fundamental. Na alimentação, tenho muito cuidado. Faço menos exercício mas cuido muito a alimentação. É uma forma de compensar, mas o exercício também é fundamental. O exercício que mais faço é andar a pé, mas mesmo assim ando pouco.
E para a tua vida, o que é que a Reflexologia te trouxe? Essas experiências todas, a ida à China, houve alguma mudança em ti?
Trouxe. Uma forma de ver as coisas diferente, um maior conhecimento sobre a alimentação, um conhecimento sobre a saúde de uma forma diferente.
E o facto de teres sido, no exame final na China, a única invisual não chinesa diplomada pela Universidade de Pequim e pela Associação Chinesa de Reflexologia. E com a classificação mais elevada. Isso não te deu uma certa sensação de pioneira?
Pioneira? Não. Eu não ligo a isso. É assim: Para mim o que tem valor é depois de eu desempenhar um tratamento durante algum tempo e ver as pessoas recuperarem. A minha satisfação está aí. Não está no que as pessoas dizem ou deixam de dizer. As notas… Muitas vezes os melhores médicos não são os que têm as notas mais altas. Mas sim cumprir a minha função. O que interessa é o que as pessoas sentem, a maneira como reagem. Eu não sou melhor que ninguém. Agora é assim: eu faço o que eu sei. E quem não sabe mais do que sabe a mais não é obrigado.
Finalizámos a nossa conversa referindo que os Sócios de Paço de Arcos ainda se recordam da Elsa com carinho. Assim como a Elsa se recorda dos casos individuais e das suas necessidades específicas.

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Carlos Batalha - Shiatsu, Yoga, Medicina Ayurvédica, sobre o Dr. Assis Milton e “as estrelas no céu escuro”.
Síntese de todos os saberes…
O Carlos Batalha procura uma síntese das diversas técnicas e conhecimentos que vai adquirindo: Shiatsu, Yoga, Medicina Ayurvédica.
Começaste com as artes marciais, Carlos?
Sim, comecei com as artes marciais, porque fiz várias operações e quando era pequeno houve uma altura em que estive vários meses na cama, em Espanha. Então depois quando voltei – eu já tinha alguma debilidade física e ficou acentuada. Um professor de Educação Física disse à minha mãe que seria bom eu fazer artes marciais e que havia a possibilidade de se arranjar… e eu comecei por treinar artes marciais chinesas.
Pensei que tinhas começado por fazer yoga para a visão.
Isso foi muito mais tarde. E depois por causa das artes marciais comecei a gostar, comecei a saber algumas coisas da filosofia oriental, minimamente, e à medida que fui crescendo comecei a perguntar-me: De onde é que isto vem? Como é que as pessoas descobriram isto? Como é que alguém pensou… Na nossa sociedade foi a questão da agressão, agride-me, vou agredir. Como é que alguém pôde pensar: Ele agride-me e eu vou fazer de uma maneira que o posso imobilizar, sem que haja agressão ou ainda pensar numa maneira em que uma imobilização vai ser benéfica para a pessoa que é, em princípio o agressor? E todas essas coisas… Então comecei a interessar-me, comecei a estudar a filosofia e comecei a perceber que havia a questão religiosa, quer o budismo, quer o taoismo, como depois mais tarde vim a saber também o induísmo, o papel que tinham tido nessas artes marciais.
Mas para estudares artes marciais tiveste de ir para uma escola…
Sim, comecei a aprender com um professor como toda a gente cá faz.
Mas que técnica?
Eu aprendi um estilo de Kung Fu que se chama Feng Shô – Mão de Vento, foi a técnica que eu aprendi um pouco mais. E depois há milhentos estilos. Nas artes marciais chinesas há muitos estilos. Comecei a aprender e depois mais tarde pratiquei outras coisas, mas o que isso fez foi que à medida com que eu não ia encontrando respostas na religião católica em que fui educado fui procurando respostas no que o Kung Fu me tinha ensinado como filosofia. Depois interessei-me mais pelo budismo, comecei a estudar o budismo. Comecei a estudar o budismo, e como veio da índia, a partir do budismo comecei a estudar o induísmo. Tive a sorte de conhecer mestres indús, indianos e não só…
Mas tudo cá em Portugal?
Cá em Portugal e depois fiz viagens para consolidar conhecimentos. Fui a Inglaterra, estudei o induísmo, e voltei ao budismo. O budismo foi a filosofia que me despertou mais a atenção. Acabei por estudar mais o budismo.
Mas entretanto tu estudaste numa escola normal…
Sim, fiz os estudos normais. Dedicava o tempo que as outras pessoas dedicavam. Também jogava à bola, também fazia outras coisas que as outras pessoas faziam, mas dediquei sempre mais algum tempo a ler e a conhecer sobre o budismo.
Que estudos é que fizeste?
Fiz escola convencional onde estudei música, na D. Pedro V em Lisboa. Acho que é a única escola, que eu saiba, que tem a vertente música. Eu segui a partir do 10º, podemos ter dois a três anos, 10º, 11º, 12º. Escolhi música, à partida porque já sabia que não queria seguir uma carreira académica, que não havia nenhum curso que me interessasse… Na escola tínhamos as disciplinas que os outros tinham, era uma variante da área de Humanísticas. Tinha colegas meus de Técnicas Administrativas, por exemplo, nós tínhamos Música. Na nossa turma, aliás, éramos poucos alunos de Música e estávamos inseridos noutra turma, tínhamos as aulas com eles que eram de Relações Internacionais. Não fazíamos instrumento, nós tínhamos História da Música, Teoria Musical e conjuntos instrumentais e vocais onde tínhamos de tocar e cantar várias coisas por partitura.   
Onde é que aprendeste a tocar viola?
Como gostava de escrever letras e queria fazer música, tinha amigos que tocavam e comecei por tocar assim… Depois estudei guitarra clássica com o professor Silvestre Fonseca. Mas foi com amigos que eu aprendi. Tive vários grupos, não foram assim muitos. Mais tarde fui com a Marta à Galiza, com o gosto da recolha da música tradicional e de recriá-la.
Agora só para retomar um bocadinho: as artes marciais, o Budismo, o Induísmo, a Ayurveda… Como é que surge a Medicina Ayurvédica?
Surge no estudo já relacionado com a Medicina de Dodos, na escola de artes marciais. Principalmente nas japonesas. Quando há pequenos problemas nós aprendemos a tratar, e há pessoas que têm mais experiência e que tratam… Nas artes marciais há muita experiência dalguns aspectos da medicina oriental, chinesa e japonesa. Depois tinha um interesse natural, porque… Eu vejo a coisa mais ou menos como um interruptor. Os pontos vitais que nas artes marciais usamos para desarmar alguém, na medicina são usados para curar. E nessa busca das origens, ao estudar o induísmo, vi que parte do sistema da medicina chinesa também já tinha sido levado por monges budistas. Houve um intercâmbio, havia coisas comuns. Ao estudar o induísmo acabei por estudar o yoga nas suas várias vertentes. E do yoga descobri a importância da saúde física e como é que isso estava ligado com a espiritualidade. Ao aprofundar o yoga conheci a medicina indiana, a Ayurveda, comecei a estudá-la depois com professores. Mesmo com os meus professores de meditação, há sempre um intercâmbio. Os professores de meditação e de yoga percebem de Ayurveda, não há assim uma diferença tão grande. O estudo surgiu naturalmente, e partiu um bocado do meu interesse. Até chegar ao ponto de descobrir várias artes marciais indianas que tinham influenciado algumas das artes marciais chinesas e que, por sua vez, também levavam à Ayurveda e às massagens. Os mestres de artes marciais também eram mestres de massagens. Usam-se técnicas do yoga com uma abordagem terapêutica que, na verdade, todas têm. Em qualquer livro de yoga, por muito mau que seja, normalmente quando se descreve uma postura descrevem sempre os benefícios e as contraindicações terapêuticas. Aprendi yoga para mim. Eu nem sequer estava interessado em aprofundar uma escola, acima de tudo o que me moveu foi o auto-conhecimento e o perceber porquê: como é que aquelas pessoas há não sei quantos mil anos sabiam aquelas coisas, como é que eles puderam descobrir? Foi um bocado tentar chegar à fonte do conhecimento. Primeiro, como é que surgiram as artes marciais, depois como é que surgiu o yoga, como é que surgiu este sistema de medicina? Foi uma curiosidade que está para além do aspecto técnico: como é que a mente humana conseguiu conceber ou lhe foram revelados estes conhecimentos, como é que nós temos acesso a isto? E em que medida é que isso pode ser importante para eu me conhecer, para eu viver melhor e para eu interagir melhor com os outros, com o meio ambiente e comigo mesmo?
Mas com o yoga melhoraste a visão…
Ah, sim. Tinha e tenho problemas de visão. Nasci sem ver. E o que eu consegui, graças a técnicas que se usam no yoga e na medicina ayurvédica, foi estabilizar a visão – tenho entre outras coisas glaucoma –, e consegui estabilizar a tensão ocular e que a doença não continuasse a evoluir. Graças a alguns exercícios. Mas nunca procurando o yoga ou a medicina ayurvédica com o objectivo de curar os meus olhos. Na verdade eu sou bastante negligente, não tenho propriamente um interesse especial em aplicar a medicina em mim… Se calhar como sempre vivi com a doença, e se calhar porque a doença me deu tantas oportunidades de reflexão e depois me levou a conhecer tantas coisas… Mas não só por isso… Não sei muito bem explicar porquê. Como sempre vivi com ela, não é que esteja acomodado. Esqueço-me um bocado que tenho este problema. Reconheço-o através das limitações que depois posso ter a ler um livro… Em função disso eu nunca procurei a medicina oriental para me curar.
 
Mas pelo que eu percebi deu-te mais reflexão, porque tiveste muito tempo para analisar as coisas de outra maneira…
Se calhar se eu não tivesse o problema de visão e se não fosse operado, nunca me tinham mandado praticar artes marciais e se calhar nunca tinha conhecido… Não sei. Nós nunca podemos prever. Ou se calhar tinha chegado lá de outra maneira. Mas na verdade condicionou a minha aprendizagem.
E baseaste-te noutros sentidos, não?
Ah, isso é um pouco um lugar-comum. Tirei cursos com pessoas invisuais e nem todos têm uma sensibilidade, nem todos têm o tacto assim tão desenvolvido. É um pouco um mito. Normalmente acontece e as pessoas têm de criar outras maneiras de substituir a visão. O olho é substituído pelos outros sentidos. Mas isto não quer dizer necessariamente que um cego dê um bom terapeuta ou um bom massagista ou que tenha uma sensibilidade extraordinária. Não é uma condição. Não se verifica sempre.
Mas voltando às massagens, já deste massagens com óleos aquecidos, não foi?
Na medicina ayurvédica, tenho trabalhado com vários mestres de meditação indianos. Também aprendi com pessoas que ensinam cá em Portugal. O que acontece na medicina ayiurvédica é que muitas vezes se usam óleos de acordo com a constituição da pessoa ou um óleo neutro. Usa-se quase sempre. E usam-se óleos muitas vezes aquecidos. Na massagem ayurvédica, seja qual for a escola, aprende-se com óleos. Na massagem de fisioterapia também usamos o óleo. Na massagem de Burt, o senhor que inventou sistemas de massagem que se usam normalmente em fisioterapia, usamos o óleo.
Mas esta massagem que utilizas na SALVA é diferente, é Shiatsu, não é?
Sim, é Shiatsu. Aqui na SALVA como normalmente trabalhamos com a medicina chinesa eu uso muito o Shiatsu. Claro que às vezes recorro aos meus conhecimentos de medicina indiana, de medicina ayurvédica e das técnicas de massagem. Shiatsu é massagem japonesa, aprendi com um professor japonês e com a excelente equipa que trabalha com ele. É diferente porque não usamos óleo, normalmente a pessoa faz a massagem vestida, ou pelo menos coberta, pelo menos na nossa escola, há escolas de Shiatsu que não… Mas nesse aspecto é diferente.
Mas tem a ver com os pontos essenciais, não é?
O Shiatsu está relacionado com o conhecimento dos meridianos e dos pontos vitais ou dos pontos de pressão que em japonês se chamam “tsubo”. Aprendemos primeiro a medir por distâncias, no corpo da pessoa. Depois com sensibilidade e com o questionar sempre vamos aprendendo… Cada vez vamos tendo uma maior capacidade de encontrar os pontos e de fazer diagnóstico, mas… É resultado de aprendizagem. Os olhos não são de grande ajuda. Deve-se aprender também pelo tacto, a sentir, e pelo questionário.
Então a pessoa entra no gabinete e perguntas como é que ela se sente? A maneira de andar, a postura?
Eu observo a pessoa desde que estou com ela.
A maneira de andar, a postura?
Tudo é importante. Todos os nossos sentidos, desde o cheirar, o sentir, temperatura… tudo. Tudo é importante para mim, como o ver e o ouvir. Tudo é importante para diagnóstico. Para mim não é importante apenas o facto deste ou aquele meridiano, esta ou aquela energia. Também é importante o aspecto físico, concreto. Onde é que há rigidez, como é que estão as articulações, qual é a amplitude articular, qual é o movimento, se a pessoa consegue levar a mão, se eu pedir à pessoa para relaxar como é que ela reage, se tenta controlar os movimentos numa situação de movimento passivo, se a pessoa deixe que isso aconteça ou não, como é que a pessoa se sente, onde é que dói… Para mim tudo isso é tão importante como os conhecimentos dos meridianos ou dos pontos vitais. Procuro fazer uma síntese de todos os saberes que aprendi ao longo da vida e da experiência. Não fiz um “delete”, por exemplo, nas técnicas que aprendi de massagem de fisioterapia…
 
Ainda não falaste no curso de fisioterapia.
Como parte da minha aprendizagem estava muito voltado para o oriente e quis completar os meus conhecimentos. Procurei uma associação que me pudesse dar também conhecimentos na área da medicina ocidental e, no caso, da massagem ocidental. Aprendi lá a massagem de fisioterapia. A APEDV é uma associação que promove o emprego e integração profissional dos deficientes visuais, neste caso, pessoas portadoras de várias deficiências visuais. Eu frequentei um curso de Massagistas Auxiliares de Fisioterapia, onde aprendemos as técnicas de Electroterapia, Cinesiologia ou Cinesioterapia, onde temos formação teórica em Anatomia e outros aspectos relacionados com a saúde. Portanto, temos um curso completo. Eu procurei este curso com dois fitos: ter também conhecimentos da medicina ocidental, como é que aborda estes problemas relacionados com o corpo e também porque eu tenho um projecto a médio-prazo que é ir à Índia, para ampliar os meus conhecimentos, e era uma maneira de ter algum rendimento. Ou seja, juntando o útil ao agradável, ter conhecimentos nessa área. E como o curso era remunerado podia também juntar algum dinheiro com o objectivo de mais tarde fazer a viagem. Tive muito boa formação. Foi inclusive o Presidente, que faleceu há pouco tempo, e fundador dessa associação, Dr. Assis Milton, que me apresentou o professor que me iria ensinar Shiatsu e o contacto para eu vir colaborar na SALVA. Portanto, é uma pessoa a quem eu devo muito da minha formação e da minha situação actual.
Voltando à viagem à Índia, para ampliares os teus conhecimentos…
Já estudei com mestres indianos e mestres que já estiveram muito tempo na Índia, o meu pai viveu na Índia, conheço pessoas que vão ao templo hindu, mas nunca fui ao espaço físico que é a Índia. Não penso estar agora muito mais tempo à espera. Se conseguir reunir as condições económicas, quero ir concretamente para Kerala, é um estado no sul da Índia, por uma razão específica. Lá a parte das massagens e das terapias físicas estão muito desenvolvidas. E porque se preserva uma arte marcial muito antiga, que é o Kalari Payato. Gostava de aprender. Depois também com a minha ida à Índia, como me sinto mais ou menos ligado com as filosofias, ia ter a oportunidade de aprofundar alguns aspectos, nomeadamente da espiritualidade hindu. E também porque Kerala teve importância na história dobudismo. Ver até que ponto podia estudar esse aspecto. Claro que o aspecto mais físico do yoga, quer sejam as posturas e os exercícios de respiração, para simplificar, também estão na minha escolha de Kerala.
Em relação à tua colaboração na SALVA? O que é que te tem trazido? Uma troca de ideias, a possibilidade de praticares as técnicas aprendidas?
Primeiro foi a oportunidade que surgiu através do Dr. Assis, como já tínhamos falado. E depois foi uma identificação com as pessoas e com um projecto. Já há muito tempo que eu tinha intenções de fazer parte ou de criar um projecto assim, que se aproximasse o mais possível da ideia que eu tenho da medicina. Se bem que eu, como sou um pouco utópico… sonho sempre ir mais longe… Desde sempre eu tenho na ideia criar um sistema de medicina tendencialmente gratuito e com base na responsabilização das pessoas pela sua própria saúde, dando formação para que as pessoas apostem na medicina preventiva. A terem um papel activo, conhecimentos práticos. Não se apoiarem só no médico ou no terapeuta, mas naquilo que podem fazer pela saúde. E acho que a SALVA também quer isso, também trabalha nessa direcção. E depois o facto de me identificar com as pessoas e ter muita curiosidade em relação à medicina chinesa, até por comparação com a medicina indiana, e mais recentemente com o Shiatsu, acho que as coisas magicamente se ajustam.
publicado por salvamedtrad às 17:45

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