Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Contos da Keiko

 

Texto introdutório de homenagem às Bordadeiras e Rendeiras
 
Também na tradição japonesa “O Trabalho com Agulhas” fazia parte da educação para mulheres.
As pessoas valorizavam estes trabalhos, como cozinhar, coser, bordar, fazer renda, etc.
Muitas viúvas conseguiam sobreviver com a agulha.
Agora, não há uma única rapariga que pregue botões. Preferem ocupar-se com outras actividades.
O ter de fazer sempre diariamente o mesmo trabalho é enfadonho. Mas as nossas antepassadas faziam-no e mantinham estas artes.
São pontos e pontos, linhas e linhas, transformados em beleza, arte e tradição.
 
Vamos abrir os olhos?
Vamos acordar?
  
 
 ----/----
 
 
Dona. Janeleira
 
Na casa de pedra, uma senhora janeleira. Está a bordar em tecido de linho que ela própria plantou e teceu.
Espera o regresso do marido.
Passa a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno…
Quantos X em cima do calendário quantos X em cima do tecido…
Agora, não tem nenhuma lágrima que molhe o tecido.
Na lareira, a sopa de pedra na panela de três pés.
 
Com o barulho do vento, ouve alguém bater à porta.
- Quem é?
- Sou eu!
No dia seguinte, uma toalha de linho: Vende-se.
 
 
 ----/----
 
 
 Escolha
 
Sara abriu a arca de madeira de um tom castanho-escuro, com chave de ferro antiga. É o seu enxoval.
Tirou uma toalha branca feita pela sua bisavó.
“Minha avó contava-me muitas vezes sobre a bisavó…”
O nome da bisavó também era Sara.
Ela trabalhava no campo.
Nessa época não havia luz eléctrica. Quando à noite fazia renda precisava de acender a vela.
Toda a família da bisavó se juntava perto da vela. Alguns trabalhavam com madeira, outros liam. A bisavó Sara aprendia renda com a sua mãe.
A mãe da bisavó sempre dizia:
- Vida de mulher é como fio de renda. Às vezes os fios emaranham-se, depois é difícil desemaranhar. Quando se trabalha com mais experiência, atenção e vontade, nada se perde.
Sara devolveu a toalha à arca e murmurou:
“Vou fazer 5 bolos de mel para vender e comprar a vela para a Primeira Comunhão do meu filho mais novo…”
 
Quem mais tarde vendeu a toalha da bisavó Sara , foi seu filho mais novo para comprar um novo leitor de DVD.
 
 
----/----

 

 

Herdeira
 
Na reunião de família para dividir a herança do avô:
Está frio, desagradável. Não há sequer espaço para entrar um rato pequeno.
Ninguém diz nada. Olham-se entre si com um ar desconfiado.
A mais nova, Helena, levanta-se e pede aos outros:
- Eu queria um lençol da mãe. Só isso!
“Esse lençol que a mãe sempre usava, muito esfregado e que tinha muitos remendos.
 
A mãe sempre dizia: - O linho verdadeiro quanto mais se lava mais suave fica e junta-se à pele…
Nunca consegui continuar na escola, mas felizmente consegui aprender a cerzir…
As vossas roupas nunca tinham buracos. Trabalhava muito, não fiquei rica, mas consegui sempre remendar a minha vida.”
 
Helena está a pensar:
“Não há nada tão valioso como este lençol!”
 
 
----/----
 

Queima – queixume – quinhão
 
Ainda havia uma cortina de fumo nos eucaliptos quando a família de Miranda entrou em casa.
Sem telhado nem janelas, parece uma casa abandonada depois de uma guerra.
Salvou-se um armário antigo de carvalho, madeira maciça e pesada, que o bisavô fizera. A avó, a mãe e Miranda costumavam esfregá-lo com cera de abelha.
Estava um pouco queimado por fora mas dentro, como a galinha protege os pintos, as jóias da família estavam a salvo.
Os homens tiram as jóias com as mãos sujas de fuligem. Restou apenas uma toalha de linho.
Vertiginosamente, antes que se instalasse nela qualquer tristeza, uma ideia passou pela cabeça de Miranda:
 
“Como é que se limpa esta fuligem da toalha…”
 
 
----/----

O bilhete de ida
 
- Avó, avó, vamos tomar chá…
Avó Maria estava a fazer croché na soleira da porta.
- Avó… Avó…
Não ouve. Não responde.
A neta vê que a avó Maria adormeceu. Tem os olhos fechados e viajou para o além.
No seu regaço, uma renda para almofada com um padrão de anjos.
 
 
 ----/----
 

Numa aldeia da Beira Baixa
 
As mulheres, no Inverno, reúnem-se no lugar mais ensolarado e no Verão, à sombra das casas.
Um, dois, três…
Habituadas a juntar as cadeiras pequenas na rua, trabalham com agulhas de croché e fios.
As notícias da aldeia correm rapidamente de boca em boca.
E as notícias passam do dedo para o fio tricotado.
 
Pronto.
Aquele naperon é feito da notícia do tio Manuel que caiu da escada no dia da colheita da azeitona e bateu com as costas.
 
O assunto da nora é sempre feito de fios apertados,
 não é?
 
 
----/----
 

A mão da mãe
 
Passado muito tempo, Pedro volta à casa da mãe.
Não há nenhuma diferença desde que ele saiu de casa.
O telhado vermelho, a parede branca, a janela quadrada debruada de azul e decorada com a cortina de croché.
Ao lado da janela, em cima da mesinha, uns óculos de velha, agulhas e renda ainda por acabar.
- Meu Deus! Desde que passou a Euros que nunca me consigo lembrar do preço do pão!
Em cima do fogão, dentro da panela de terracota, a açorda está a cozer.
- Desculpa, não sabia que vinhas. Os meus dentes estão podres e só aceitam isso…
As mãos da mãe, com muitas rugas, desenham ovos em cima do pão cozido, como uma renda.
 
 
----/----
 

A sesta
 
“Olé mulher rendeira
Olé mulher rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar…”
 
Uma menina canta na escada de pedra, com vista para o porto.
Na sua mão os bilros bailam qual dança folclórica.
Debaixo da escada, as ondas do mar criam muita espuma branca. Parece uma renda de bilros, com os seus fios brancos.
Ao som das ondas, os pauzinhos tocam uma serenata, convidando os gatinhos à sesta.
 
Zabunnn, Zabunn, Zabunn… Zu…
Tru, Tru, Tru, Truuu…
 
 
----/----
 

A competição
 
- Mãe, olha para cima da janela!
A Catarina chama a mãe, o dedo apontando uma teia de aranha.
A aranha-rainha cria um naperon de bilros, decorado com uma borboleta azul e preta.
 
O tempo passou. A Catarina já tem cabelos brancos. Está a trabalhar com bilros.
As netas chamam:
- Avó, avó, olhe! A aranha-rainha copiou o seu desenho!
 
Quem ganha esta competição?
Deus é que sabe!
 
 
----/----
 

No convento
 
- Silêncio!
A Irmã grita como sempre.
Um quarto grande, frio e cinzento. No convento dez meninas da nobreza aprendem renda de bilros.
A educação das mulheres nessa época incluía rendas e bordados, para aumentar o valor feminino.
- O meu enxoval ainda é pequeno…
Uma menina suspirou.
- Olha, aquela menina com cabelo louro. O pai fracassou nos negócios.
Uma menina faladora cochichou.
- Se calhar vai vender tudo o que fez. Podemos falar com ela!
A menina loura ouviu a conversa de maledicência mas continua a rolar os pauzinhos e a passar fios de linho, puxando com firmeza.
Ninguém sabe esse segredo. Só a luz da clarabóia , iluminando as suas mãos.
Uma lágrima cai…
 
 
----/----
 

Uma historia de amor
 
Onde existe a mão do homem existe a ligação à natureza.
Na estação em que floresce o linho o campo fica colorido de azul como se fosse a continuação do céu.
O linho ceifado e branqueado com água da ribeira e cinza da palha deixa as fibras tão brancas como as nuvens do céu.
 
A Águeda gosta muito de fiar e tecer.
Todos os dias, se senta em frente do tear e tece o tecido de linho.
Quase todas as meninas da aldeia estão a trabalhar na cidade, mas a Águeda ficou lá. Enamorou-se de um pastor, um rapaz chamado João.
O coração da Águeda está sempre branco e flexível como o linho.
O coração do João está sempre brando e fofo como a lã de ovelha.
 
Quando o sino da igreja toca, a maioria das pessoas da aldeia vão para a missa de domingo.
Os ricos vestem de forma vistosa, os pobres roupas remendadas.
Alguns rapazes decoram o seu bolso com “Lenços de Namorados”.
Entre eles há uma competição. Quem tem o lenço mais lindo?
 
Gostou tanto dele
Quem só se açoia ao domingo
Dei um lenço ao meu amor
Pra ele açoiar o pingo
 
As raparigas bordam as palavras de amor e decoram com lindas lendas.
Hoje o João recebeu um lenço muito branco, bordado a vermelho, com desenhos de flor de linho:
Só a ti amo
Mais ninguém…
 
 
----/----
 

A tricotar
 
Os fios, em comprimento e largura, cruzam-se, enroscam-se, dobram-se, separam-se – vão e vêm.
 
Naquela manhã a Fernanda e o Jorge encontraram-se perto da fonte. Ela está sentada a tricotar filé. Ele tira água com um balde.
A Fernanda deita um olhar para o Jorge, mas as mãos caminham ritmadamente como dedos-soldados.
O coração dela bate toc toc toc…
E a agulha continua o vaivém no mesmo buraco.
 
Entretanto o Jorge tira água com o balde sem fundo. A água cai,                                          
doc doc doc…
 
O amor começa com dois fios. Quem comanda é o Deus do Destino.
 
 
----/----
 
 
Contrapesos
 
No canto do café, ao lado da janela, uma mulher está a fazer croché com toda a firmeza.
Aos seus ouvidos chegam os ecos do marido bêbado.
“Ai, ai… Quando é que ele vai deixar de beber… Quando falta o trabalho aumenta a bebida… Como é que Deus nos faz sofrer tanto…”
Os fios de algodão colhem os murmúrios das mulheres…
 
 
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Tricô de felicidade
 
Em Lisboa, no Jardim do Príncipe Real, uma senhora sentada no banco de ferro, debaixo da árvore grande.
Está a tricotar um par de meias de bebé.
O bebé vai nascer antes do Natal. É o seu primeiro neto.
Não sabe se é menino ou menina… Mas se calhar a cor amarela serve para os dois.
 
Foi numa retrosaria, esquecida no extremo do bairro, que comprou o novelo de lã fofa.
 
Um raio de sol passa pelo alfinete preso ao seu ombro.
Tricota com amor e esperança.
O trabalho é fofo como um pintainho amarelo.
 
 
----/----
 

Plausibilidade
 
Numa das margens do rio Tejo há um banco de madeira em cima do passeio.
No banco estão sentadas três mulheres como se tivessem sempre lugar reservado. São um grupo de bordadeiras de Arraiolos.
Uma delas, a senhora mais idosa, diz:
- Não é um bordar fácil! O fio de trás tem de ter sempre a mesma direcção… Muitas pessoas reclamam: “Os chineses copiam o Arraiolos!” Mas isso não me incomoda. Eu bordo para mim própria. O mais importante é como cada um vive a sua vida. A minha arte é isto! Ninguém consegue copiar a minha vida!
Levanta o tapete e mostra orgulhosa a metade já concluída.
 
O desenho no tapete?
O cravo vermelho – símbolo da revolução em Portugal.
 
 
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Ponto de sombra
 
Dona Maria é uma senhora Madeirense.
Muito trabalhadora, séria, religiosa, e teimosa.
Quando nasceu a terceira filha, o marido faleceu.
Com três pequeninas, única a trabalhar, só consegue ficar em casa. -  É bordadeira.
 
Desde pequena, Maria aprendeu bordados de Madeira.
O seu enxoval é todo feito por ela.
 
Maria foi a casa de uma senhora que organiza produção de bordados de Madeira.
-Minha senhora, eu preciso de trabalho!
A partir desse dia, como um relógio, Maria começa a bordar.
                  
Acorda ao nascer do sol, à noite com luz da vela,
Trabalha, borda….
As filhas também aprendem com a mãe.
Os lindos bordados pagam a educação das filhas. É o seu único meio de sobrevivência.
 
No dia da Revolução de 25 de Abril 1974 - decidiram ter  luz eléctrica .
-Que bom! Não nos precisamos mais de preocupar em perder as agulhas!
As filhas estavam muito contentes.
- Mãe tira o teu chapéu! Agora não há sol.
Maria estava a bordar com o chapéu para o sol.
-Olhem filhas! A luz eléctrica é demasiado brilhante. Os olhos doem!
-Preciso fazer sombra.
 
Uma técnica de Bordados da Madeira chama-se
`` Ponto de sombra´´.
 
 
----/----
 
                                                          
Sonho
 
-Não há?! Não chegou?!
Todos os dias, uma mulher vai perguntar à alfândega no Cais de Lisboa.
Na Revolução de Moçambique, antes de sair do país, a família de Filomena mandou muitos pacotes pelo transporte de barco.
Chegaram a Lisboa só dois.
Um, tinha lençóis, e o outro, livros.
- Onde está o meu enxoval! Coisas da bisavó, avó, mãe, e minhas…
 
Esperou quantos anos…
 
No fundo do mar, na floresta de algas, os naperons de Mena, dançavam como medusas de mar, os bilros decoravam conchas com luz azul…
Às vezes os pescadores descobriram os peixes tão bonitos, enfeitados com figuras de renda…
 
 
Autoria: Keiko Kamozawa
 
            

 


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publicado por salvamedtrad às 17:06

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